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033 - cidade e teatro Gil Vicente

Trecho da cidade; ao centro o Convento das Freiras Carmelitas e o Teatro Gil Vicente - Foto de: António Crisógono dos Santos


O Teatro Gil Vicente, que abriu as portas ao público em 1862, era semelhante ao famoso Teatro Ginásio de Lisboa, embora de dimensões mais modestas do que aquela casa de espectáculos da capital que ardeu em 1921. O teatro situava-se na rua Gil Vicente, em espaço hoje ocupado pela antiga Escola Industrial de Lagos/Escola Secundária Gil Eanes.


A história do Teatro português muito deve ao teatro amador. E terá sido devido à importância dessa vertente não profissional que o nosso teatro pôde adaptar-se às influências vindas do exterior, pois as experiências dos amadores funcionaram como laboratório das novas correntes e tendências junto do público nacional. No auge deste fenómeno assistiu-se a uma explosão de companhias e de espaços novos, renovados ou adaptados, sobretudo durante a segunda metade do século XIX. O popular drama de “faca e alguidar”, secundado pela comédia burlesca e de costumes, e completado pelo tradicional acto de variedades, constituía a resposta apropriada à solicitação do imaginário popular. Assim decorreu durante décadas, sobretudo na província, onde o amadorismo puro era a característica principal dos actores; trabalhadores de dia, generais, dom Juans, e cardeais, em palco, à noite.
Era a época do teatro, diversão que sustentou o panorama cultural do concelho durante décadas. E segundo afirmava a figura incontornável do meio teatral lacobrigense, o encenador Sebastião Murtinheira: “Por vezes, as companhias nacionais iniciavam as suas tournées por Lagos para aquilatar da aceitação do público das províncias”.
Voltemos um pouco atrás no tempo para dar conta de que os livros antigos da Igreja de S. Sebastião aludem à existência de um teatro em Lagos, em 1604, destacando a censura prévia que submetia todas as peças à apreciação do Bispo D. Francisco Mascarenhas ou do prior de Santa Maria. Pouco mais se sabe da realidade dos teatros na nossa cidade até à grande difusão das artes cénicas verificada durante a segunda metade do séc. XIX. Desse período chegaram até aos nossos dias alguns testemunhos concretos a par de simples ecos, referenciando vários teatros. Manuel J. Paulo Rocha, na Monografia de Lagos, refere que um deles esteve instalado no edifício hoje ocupado pela tipografia Paula, situado na Rua Cândido dos Reis, antiga Rua Augusta. Presume-se que terá sido o Teatro Lacobrigense, desactivado aquando da “entrada em cena” do Teatro Gil Vicente.
O “Theatro dos Artistas Lacobrigenses ou Theatro Artístico Lacobrigense” – assim grafado em 1869 no panfleto de apresentação da peça “Sorrisos e Lágrimas”, um drama em dois actos de Diogo Rodrigues Formosinho –, localizado na Rua de S. Sebastião (a entrada era pela rua da Torrinha), funcionou em simultâneo com o Gil Vicente, até ao seu encerramento em 1877.
Notável sala de espectáculos terá sido o Teatro Gil Vicente, construído por volta de 1862 (inaugurado em 1866) situado na Rua da Amargura (depois, Rua Gil Vicente), implantado próximo do actual portão lateral da antiga escola Gil Eanes. Com uma estrutura interior que reproduzia o aspecto do Teatro Ginásio de Lisboa (destruído por um incêndio em 1921), era composto pelo palco, uma plateia e duas ordens de camarotes. Também ali se realizaram grandes bailes de Carnaval (ver foto). Encerrou em 1938.
Igualmente célebre na história de Lagos, foi o Cine-Teatro Ideal, de Simões Neto, localizado na Rua Cândido dos Reis, onde hoje se encontra o hotel Riomar. Este empresário explorou, antes, o “Salão Animatográfico” ou “Salão do Simões”, localizado na Rua Dr. Joaquim Telo, a primeira sala de cinema existente em Lagos. Em finais de 1914 ali se deu uma récita de caridade a favor das viúvas e órfãos belgas promovida por um grupo de rapazes de Lagos. Para além das fitas animatográficas, o programa incluiu também teatros de comédia. Os preços dos ingressos para a superior eram de 200 réis e para a geral 100 réis (1.000 réis = 1 escudo = meio cêntimo de Euro).
Em 1935 o Cine-Teatro Ideal apresentava com grande êxito “As Pupilas do Senhor Reitor” encenada com a participação de Sebastião Murtinheira e a colaboração musical de José Lopo da Veiga. Diogo R. Formosinho, José de Sousa, J. Brak-Lamy, Aparício Palma, Bento P. Formosinho, e outros lacobrigenses com vocação para a dramaturgia, viram peças suas encenadas nos teatros da cidade.
Já em plena expansão da sétima arte, o Cine-Teatro Império, inaugurado em 1946, terá contribuído menos para o panorama teatral da cidade pois foi criado para dar resposta à apetência pelos mundos fantásticos que o ecrã mágico oferece. No entanto, também ali se apresentaram algumas peças de teatro, revistas e concertos de música clássica.
A realidade contemporânea do teatro na nossa cidade tem estabelecido palco no Centro Cultural de Lagos, exibindo o trabalho do Teatro Experimental de Lagos, da Oficina Municipal de Iniciação à Expressão Dramática – OMINED, do Grupo de Teatro do Clube Artístico Lacobrigense, e do Grupo de Teatro Sénior, herdeiros desse espírito edificante que animou as salas e os grupos dos séculos passados.
O Teatro, mormente o amador, mercê da relação de proximidade que estabelece com o público e dos laços que o prendem à comunidade a que está vinculado, mantém-se como um exercício cultural que ultrapassa o carácter superficial e lúdico, enformando uma actividade indispensável para uma vivência partilhada da comunidade.

Adaptação do texto de F. Castelo “O Teatro e os teatros em Lagos”, publicado na Agenda de Eventos 5entidos, editada pela CMLagos em Março de 2009

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