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014 - Estação dos Caminhos de Ferro

Estação da C.P. no Verão de 1922 (o combóio chegou a Lagos em 30 de Julho de 1922) - Foto de: António Crisógono dos Santos.


É sabido que o meio ferroviário revolucionou o quotidiano das populações, e que ao receio inicial provocado por aquelas soberbas e ruidosas locomotivas seguiu-se o enorme fascínio pela sua potência e velocidade. O comboio assumiu rapidamente um lugar no imaginário das crianças e dos adultos substituindo as carruagens e os cavalos de outrora. Por toda a parte onde surgiu, o comboio integrou-se no quotidiano dos povos encurtando grandemente as distâncias e reduzindo o tamanho do mundo. Em Portugal não foi diferente, a ferrovia uniu as comunidades e levou o progresso a todos os distritos do país. Durante mais de um século o comboio assumiu-se como símbolo de evolução e os caminhos-de-ferro como paradigma da organização e da mecanização.

Após muitas vicissitudes, o comboio chegou finalmente a Lagos no dia 30 de Julho de 1922. Dessas vicissitudes nos fala José Carlos Vasques, venerável concidadão a quem a comunidade lacobrigense muito deve no âmbito da manutenção e da recuperação da sua memória colectiva. Nascido dois anos antes da chegada do comboio a Lagos, dele transcrevemos elucidativas palavras sobre a história da ferrovia em Lagos: «Já desde 1912 que o farmacêutico Ribeiro Lopes, Presidente da Câmara, lançara o imposto ad valorem de 1%, sobre as mercadorias exportadas do concelho, justamente para constituir o fundo de garantia sobre o empréstimo da Caixa Geral de Depósitos para concretização do tão almejado projecto ferroviário. Trata-se de um dos gritantes casos da política nacional, em que uma edilidade se substitui à administração central para implantar o caminho-de-ferro. O tal empréstimo só foi extinto em 1960. O traçado final da linha pela Meia Praia, segundo se supõe, foi uma alteração ao plano inicial. A estação esteve inicialmente prevista para o Rossio de S. João, atendendo à continuação do caminho-de-ferro com destino a Sagres. O Estado não quis suportar qualquer verba, deixando esse ónus à Câmara Municipal. Dado tratar-se de uma estação terminal verificaram-se outras obras para além da estação e da via: teve que se proceder a um aterro para criação das infra-estruturas e, para isso, foram deslocados milhares de metros cúbicos de areia provenientes das dunas da meia praia; o recinto de manobras do material circulante; casa para os ferroviários; e a necessária rotunda para mudar o sentido do material circulante (mais tarde é que a CP instalaria a placa giratória, ainda existente no barracão isolado). Todas estas estruturas foram edificadas sobre o sapal, com consequentes custos de aterro e terraplanagem.»

Da inauguração, propriamente dita, deram conta os jornais coevos, como a Ilustração Portuguesa, de cobertura nacional, em cujas páginas se lia em Agosto desse ano: «Inaugurou-se o ramal do caminho-de-ferro de Portimão a Lagos. Finalmente, a antiga e laboriosa cidade algarvia, debruçada graciosamente na mais linda baía que possuímos, viu realizada a sua maior aspiração de tantos anos. Por isso a festa da inauguração atingiu um entusiasmo delirante. Uma nova e próspera fase de vida comercial e industrial vai abrir-se para a florescente Lacobriga dos romanos, florescente nesse tempo pela agricultura, pela indústria e pelas grandes pescarias. Ligada com o resto do país pelo caminho-de-ferro, Lagos reconquistará dentro em poucos anos o honroso título de notável que lhe foi justamente outorgado num alvará de 1535.»

Acerca das transformações operadas na vida da cidade, e para além do transporte de pessoas que já de si constituiu um progresso incontestável, o pescado que demandava o porto de Lagos passou a ser expedido para Lisboa e outros destinos através do comboio, onde seguia encaixotado e acondicionado em gelo. Para além destes aspectos pragmáticos de cariz económico e social, o comboio também teve impacto no sentimento dos lacobrigenses. Hoje, como então, ainda se vive a magia do cumprimento que o comboio ou a automotora dispensam à cidade anunciando a sua chegada através do longo apito que, no nosso imaginário, mescla os tempos da locomotiva a vapor com o da transitória máquina diesel-eléctrica; especialmente nos dias em que o vento Levante empurra o sinal sonoro para a urbe disposta em anfiteatro, espectadora privilegiada desse nostálgico acontecimento que é a chegada do comboio.

Voltando à História damos conta de que as sinuosas e adversas vicissitudes ligadas à implementação do meio ferroviário em Lagos não terminaram com a construção da Estação e a chegada do comboio, e disso nos dá conta a mesma Ilustração Portuguesa que, em edição de Fevereiro de 1923, denunciava - num artigo intitulado “Uma Magnífica Estação de Caminho-de-Ferro Servida por uma Ponte Provisória de Madeira Tosca” -, que as obras ainda não estavam concluídas: «Possui Lagos a melhor estação da linha férrea do Sul – uma estação quasi luxuosa – e, contudo, a dar-lhe acesso, continua em serviço uma velha ponte de madeira tosca, construída quando do tempo da construção do ramal, evidentemente a título provisório, mas a que a nossa inércia e desmazelo deu foros de definitiva. Torna ainda mais imperdoável esse desleixo a circunstância de já existirem montados os encontros de alvenaria da nova ponte – e isto há uma boa meia dúzia de anos! Para quê mais comentários? O contraste que ressalta das duas gravuras que publicamos fala por si!…»
Como referiu José Carlos Vasques, antes da instalação da ponte giratória existiu um enorme círculo de carris que permitia a manobra de virar a locomotiva no sentido inverso, pois que Lagos é fim de linha. Imperativos técnicos de manutenção do material circulante, a dificuldade da manobra e a própria natureza do terreno arenoso, bem como a necessidade de redução do espaço ocupado, terão ditado a sua substituição por uma ponte giratória, tal como podemos ver hoje junto às cocheiras (garagem de locomotivas e carruagens).

Se, pela sua peculiaridade, a viagem de comboio suscita sensações especiais também é verdade que muitos dos percursos do caminho-de-ferro, atravessando paisagens de deslumbrante beleza natural, ampliam essas sensações tornando uma simples viagem numa experiência gratificante que frequentemente desejamos repetir. Assim é na aproximação ao destino final ocidental da Linha do Sul. Nos três quilómetros de praia percorridos pelo comboio, o passageiro obriga-se a vir à janela, sobretudo quando chega de madrugada. E da janelinha de guilhotina invertida, ao som ritmado e inconfundível das rodas férreas nas junções dos carris, extasia-se perante a paisagem do sol reflectido nas águas da baía e da sua luz que reverbera as cores e matizes das rochas a poente, desse cenário deslumbrante que é a nossa Costa D’Oiro.

Infelizmente, em Portugal, tal como em muitos outros pontos do globo, o meio ferroviário foi perdendo terreno para os transportes rodoviários, numa opção pouco inteligente e seguramente mais lesiva para o ambiente, e para a comodidade e a economia das populações. Antes de Abril de 1974 chegou a equacionar-se a modernização da via-férrea do Algarve, alargando-a a via dupla electrificada. Tais projectos não passaram de expectativas goradas, devoradas por esse imperativo de remeter para novas vias de betão e alcatrão o transporte colectivo de pessoas e bens. Hoje, o comboio ainda chega a Lagos. Que assim se mantenha por muitos anos. Talvez um dia veja reconhecida a sua importância e o seu real valor; e que dessa constatação surja um verdadeiro renascimento do meio ferroviário que explore as suas enormes potencialidades.

A primeira viagem de comboio em Portugal (entre Lisboa e o Carregado) realizou-se a 28 de Outubro de 1856.
"...a máquina, escusado será dizer, das mais primitivas (parecia um enorme garrafão) não tinha força suficiente para puxar todas as carruagens que lhe atrelaram e fora-as largando pelo caminho. Algumas, de convidados, nos Olivais. O vagon do Cardeal Patriarca e do Cabido ficou em Sacavém; mais um recheado de ilustres personalidades ficou ao desamparo na Póvoa. Creio que, se o Carregado fosse mais longe, chegava a máquina sozinha ou só parte dela."
in Caminhos de Ferro Portugueses - Eng. Francisco de Quadros Abragão.

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