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088 - Bote no rio em vista tirada da praia de S. Roque

Rio de Lagos com bote e casario ribeirinho, circulado com carimbo de correio de 1914 (igual ao Nº15, circulado com carimbo de 1913). Foto de: António Crisógono dos Santos.

Recordar a I Guerra Mundial (28 Jul. 1914 – 11 Nov. 1918), a guerra que supostamente acabaria com todas as guerras futuras, é circunstância partilhável com quase toda a humanidade, em especial com os povos e estados europeus. Por isso não é de estranhar que Lagos também tenha tido nela representantes seus, integrados no Corpo Expedicionário Português, uma força com mais de 55 mil homens dos quais cerca de 21 mil foram vitimados pelo conflito.
Um dos mais importantes valores do estudo da História reside no facto de nos permitir aprender com os erros do passado, embora nem sempre assim aconteça, lamentavelmente. Desse período turbulento e de conflituosa ruptura com a realidade geopolítica europeia e mundial vivida até então, apresentamos este postal ilustrado de Lagos que dá conta dos sentimentos que perpassavam pela alma de uma lacobrigense que nele deixou impressas as suas palavras.
Datado de 1914, a remetente refere que o irmão terá partido do Brasil para se alistar no exército francês.

Nota: Num outro postal, de 1919, a alusão às “torturas por que o nosso querido país está passando” bem pode referir-se às agruras da presença do CEP na frente de combate como à situação vivida no território nacional metropolitano, recordemos que em 14 de Dezembro de 1918 o Presidente da República Sidónio Pais é assassinado em Lisboa, e que logo após a eleição de Canto e Castro em Dezembro do mesmo ano, surge o Manifesto da Junta Militar do Norte (3 de Janeiro de 1919), que se assume como representante do sidonismo [aliás, a 19 de Janeiro a Monarquia é proclamada em Lisboa e no Porto. Organiza-se uma Junta Governativa do Reino dirigida por Paiva Couceiro, que declara o estado de sítio em todo o território continental]; e isto no mesmo mês em que chegam a Portugal os primeiros 710 militares prisioneiros dos alemães. Também a alusão à impossibilidade de ter notícias de casa «visto que me não é permitido saber de ti e dos nossos filhos» poderá referir-se à censura postal que vigora em Portugal até finais de Abril de 1919.
Uma nota final sobre a importância que o rio possui para os lacobrigenses do início do séc. XX, como certamente para os habitantes de todas as épocas, fica patente na escolha dos dois remetentes sobre a temática postal: o rio e o casario de Lagos, e o barco tripulado, que bem sugere um ambiente e um desejo de vida pacata e serena, longe dos conflitos centro-europeus, que a ultra-periférica cidade lusa propõe.

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