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Canelas Kubitschek e Tomás

Na inauguração da Avenida dos Descobrimentos, Juscelino Kubitschek de Oliveira (Presidente da República Federativa do Brasil) saúda a população – Foto de: atribuída a ArteLuz Lx., colecção José Manuel Freire

A Avenida dos Descobrimentos e as Comemorações Henriquinas


Integrados nas comemorações do 5º centenário da morte do Infante D. Henrique, o Estado Novo executou alguns projectos de referência destacando-se, em Lisboa, a reconstrução do Padrão dos Descobrimentos – o desenho original de Cottinelli Telmo erguido em 1940 numa estrutura provisória é, então, executado em betão e cantaria.

Mas é em Lagos e Sagres que a obra maior é executada. Em Lagos a frente ribeirinha é profundamente alterada com a construção de uma avenida marginal; a demolição do casario da Ribeira permitindo a exposição das muralhas, agora “embelezadas” com ameias e seteiras e dois arcos na Porta de S. Gonçalo; a demolição das ruínas do revelim; a implantação de um espaço ajardinado; a adição de guaritas no Forte Ponta da Bandeira (como terá possuído originalmente e até 1790); e a ampliação da Praça da República que recebe uma estátua ao Infante D. Henrique.

Mas se por um lado a cidade ganha essa proeminente moldura que é a novel avenida marginal, por outro lado «[…] sofre grande transformação ao ser forçadamente introduzida […] a Avenida dos Descobrimentos – que teve como consequência imediata o desaparecimento das primitivas relações da cidade com o mar […]» (Paula, 1992). O espírito da comemoração, uma exaltação à lusofonia e à memória do império cinzelada na pedra, encontra cabal interpretação nestas palavras: «Era um tempo em que, num país com elevada taxa de analfabetismo, a História se divulgava com os edifícios e monumentos da nação […]» (Parreira, 2008).

Em 7 de Agosto de 1960 Lagos e Sagres foram palco de uma celebração que juntou dois Chefes de Estado, o Presidente da República Portuguesa e o Presidente da República Federativa do Brasil, inúmeros dignitários, e marinheiros e navios de vários países que conferiram à efeméride um reconhecimento internacional pela figura do Príncipe Navegador que personifica a epopeia marítima de um povo “que deu novos mundos ao mundo”.

Sobre o raiar desse dia 7 de Agosto em Lagos reproduzimos as palavras do enviado especial do Jornal “O Século”:
“Ao amanhecer, Lagos extenuada de uma noite de animação e de alegria, estava recolhida. Já não havia marujada e a cidade voltava à vida de pacatez. Perdurava no entanto o ar festivo: bandeiras, galhardetes e colgaduras. No entanto, na Avenida dos Descobrimentos a movimentação de veículos era já intensa […] deslizavam velozmente automóveis e camionetas cheios de gente a caminho de Sagres. Os dois Presidentes e as suas comitivas saíram cerca das 9 horas do Hotel da Meia Praia […]. Os automóveis percorreram devagar a avenida marginal e pararam junto ao monumento do Infante, na Praça da República. […] desceram os dois Chefes de Estado e o sr. ministro das Obras Públicas e considerou-se inaugurado o monumento […] percorreram depois, a pé, a avenida até à fortaleza da Bandeira admirando o Chefe do Estado do Brasil as muralhas da cidade agora restauradas na sua traça primitiva."


Da presença do Presidente da República Federativa do Brasil neste acontecimento nos dá conta um seu biógrafo:
«[…] O programa obedece ao figurino muito brasileiro e português: três horas de atraso… às quatro e trinta da tarde [6 Agosto 1960], os dois presidentes embarcam na estação fluvial do Cais do Sodré, para cruzar o Tejo na direcção de sua margem esquerda. As sirenes das embarcações soavam em saudação aos visitantes. No Barreiro, estação do caminho-de-ferro, embarcam num trem especial – que os portugueses chamam de comboio –, com destino a Lagos, um porto do Algarve, sudoeste de Portugal. Ali pernoitam e, na manhã seguinte, o presidente Juscelino é surpreendido por uma grande multidão que o aguardava na rua. Ainda em Lagos, na Praça da República, Kubitschek inaugurou o Monumento ao Infante D. Henrique, uma bela obra do escultor Leopoldo de Almeida. Forma-se o cortejo de automóveis rumo a Sagres […] alguém pergunta a Juscelino sobre Brasília. A resposta vem com rapidez e entusiasmo: “Brasília é a continuação da obra do Infante de Sagres!”. […] O ponto alto das Comemorações Henriquinas foi o desfile naval de Sagres, com a participação de várias nações […] Argentina, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Noruega e outras nações […]» (Guerra, 2005).

Sobre a obra, o dia de inauguração e alguns aspectos da repercussão imediata da nova avenida na vida dos locais, juntamos breves depoimentos de lacobrigenses:
José Marques Correia – “Isto começou aí por 1956. Eu saí de Lagos em 58 e a obra ainda não estava concluída. Foi uma obra de dimensão nunca vista para aquela época, meteu muita gente e maquinaria pesada. A afluência de tantos jovens de fora proporcionou às m’cinhas da cidade oportunidades para namoricos e casamentos; uma prima minha assim se arrumou, e a coisa deu certo…”
Fátima Santos – “lembro-me das dragas a chuparem caranguejos e lama”.
Cilinha Pombeiro – “Eu estive na festa de inauguração da Av. e da estátua de D. Henrique. Foi lindo; então com o canal cheio de iates, hoje isso é banal mas naquela altura foi majestoso.”
Jorge Pinto – “Eu estive lá e lembro-me bem, milhares de pessoas incluindo marinheiros de todo o Mundo e a baía de Lagos cheia de navios de guerra, eu tinha vinte anos de idade.”
José Júlio Fogaça – “Eu era rapazote mas lembro-me bem dos marinheiros enchendo os cafés da baixa e as tascas junto ao Mercado Municipal, e as filas que faziam para aceder a uma casa ali na Rua dos Burros conhecida pela “três dedos”… enfim, divertiam-se.”
Fátima Santos – “No ano da inauguração da dita, o Natal foi muito original para os lacobrigenses no exterior: receberam postais de boas festas com vistas da avenida…”

E concluímos com uma nota curiosa que nos é aportada pelo biógrafo de JK referindo que quando o Presidente já se encontrava no Porto os jornais noticiaram, em despacho da UPI, um acidente rodoviário sofrido por uma das viaturas da caravana, aquela em que viajava o embaixador do Brasil em Portugal, Negrão de Lima, e o Reitor da Universidade do Brasil, Pedro Calmon, logo à saída de Lagos rumo a Sagres – no dia 7 de Agosto, portanto - “o automóvel rodopiou espectaculosamente”, tendo daí resultado “leves ferimentos em um braço” do Reitor Pedro Calmon, que não impediram porém o decurso da viagem pois que, mudando de viatura, nela prosseguiram para o promontório.

Fontes Citadas:
- PAULA, Rui – Lagos Evolução Urbana e Património. C. M. Lagos 1992, pág. 119.
- PARREIRA, Rui – A Propósito dos Recintos Amuralhados de Lagos, in “Muralhas de Lagos – Reedição fac-similada do Boletim nº 104 (1961) da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais”. C. M. Lagos 2008, pág. 9.
- GUERRA, Jacinto – JK Triunfo e Exílio - Um Estadista Brasileiro em Portugal. Thesaurus Editora, Brasília 2005, págs. 29-31.
- Hora de Sagres, Hora do Infante. O SÉCULO (8 Agosto 1960, págs. 1 e 14)

Texto revisto em 2015.01.23 (adição de referência às guaritas do Forte Ponta da Bandeira)

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