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Maias

Maias, em Mai. 2009 - Foto de: Francisco Castelo/CMLagos

A origem da tradição das Maias perde-se no tempo. Segundo alguns, a Maia era uma boneca de palha de centeio, em torno do qual se dançava durante toda a noite do primeiro dia de Maio. Ritual ligado aos ritos da fertilidade, do início da Primavera e do novo ano agrícola, José Leite de Vasconcelos refere o costume português das Maias como a mais antiga manifestação desta florida festa naturalística.

Com o advento do Cristianismo atribuiu-se a este velho ritual pagão um carácter religioso. A lenda alusiva a esta tradição, que com mais frequência se ouve, reza assim: Herodes soube que a Sagrada Família, na sua fuga para o Egipto, pernoitaria numa certa aldeia. Para garantir que conseguiria eliminar o Menino, Herodes dispunha-se a mandar matar todas as crianças. Perante a possibilidade de um tão significativo morticínio, foi informado, por um outro "Judas", que tal poderia ser evitado, bastando para isso, que ele próprio colocasse um ramo de giesta florida na casa onde se encontrava a Sagrada Família, constituindo um sinal para que os soldados a procurassem e consumassem o crime... A proposta foi aceite e Herodes tratou de mandar os seus soldados à procura da tal casa. Qual não foi o espanto dos soldados quando, na manhã seguinte, encontraram todas as casas da aldeia com ramos de giesta florida à porta, gorando-se, assim, a possibilidade do Menino Jesus ser morto. Daí terá vindo essa tradição de colocar ramos e giestas nas portas e janelas das casas, na véspera do 1º de Maio.

Quase todas as tradições populares recorrem à doçaria, como forma de preservar e evocar essas memórias. No Algarve podemos encontrar o “queijinho de Maio”, um bolo cerimonial confeccionado na altura em que o figo é colhido e seco. É feito com camadas alternadas de figo e massa de amêndoa, sendo encetado apenas no dia 1 de Maio.
“Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”, daí registarem-se de Norte a Sul de Portugal formas variadas de celebrar o mesmo evento, conforme a região ou província, ou mesmo com variações de localidade para localidade. Em Monchique confeccionam uma broa de milho doce, chamada “bolo de Maio” ou “bolo de tacho”. Mas em quase todo o Algarve as “rolhas de Maio” são bolinhos de massa de amêndoa e ovos.

A celebração das “Maias” no Sul, ou do “Maio moço” no Norte, mantém-se viva, tal como no Alentejo onde, à imagem do que sucedia no Algarve, a “Maia” era representada por uma menina vestida de branco, com uma coroa de flores na cabeça e adornada com jóias e flores. A menina ficava sentada num trono, enquanto à sua volta outras crianças pediam esmola para a “Maia”. Em Beja enfeitavam um rapazinho com flores, ao qual davam o nome de “Maio pequenino”. Na Beira Baixa os bonecos enfeitados com giestas eram colocados à janela das casas, no dia 1 de Maio, antes do Sol nascer. Na Beira Litoral os rapazes colocam, durante a noite, ramos de flores (as maias) à porta das raparigas que deparam com elas na manhã seguinte. Nalgumas localidades dos Açores e da Madeira também se cultiva esta tradição. Nas ruas, à porta das casas, sobre os muros, no cimo das árvores, colocados nos carros e noutros locais – por vezes em encenações inventivas –, podemos apreciar os populares e divertidos “Maios”, sentados, deitados ou de pé. No Alto Minho, as “Maias” (raminhos de giesta) continuam a figurar na tradição.

Consagrações ou símbolos exorcizantes, estas figuras eternizam antiquíssimos cultos de purificação para celebrar o final do Inverno e o despertar da Primavera, consubstanciados na erradicação do “Maio”, igualmente chamado o “carrapato” ou o “burro”, identificado com o mal e a doença – mascarando, assim, a personificação do nome temido: o demónio. A identificação do Maio com o burro poderá, ainda, resultar de uma reminiscência de um tributo medieval, designado “cavalo de Maio”, cobrado no dia 1 de Maio a todos aqueles que não possuíam um cavalo em boas condições para a guerra.

Em Lagos, este evento, tão arreigado às suas gentes – que no quinto mês do ano davam grandes passeios às hortas e às praias, folgando e festejando, com a natural jovialidade e alegria que caracteriza os algarvios –, coincidiu durante muitos anos com o feriado municipal de Lagos e mesmo quando o deixou de ser (passou para 27 de Outubro) a tradição de celebrar o Maio manteve-se. Nesse dia despovoava-se a cidade. A praia do Porto de Mós, por exemplo, enchia-se de gente provida de farnel, e papagaios de papel que ondeavam ao vento.

O indispensável “desarrolhar do Maio” consistia em saborear uns bolos de amêndoa ou uns figos torrados, não faltando a habitual aguardente de medronho, quer provenientes dos farnéis esmeradamente preparados, quer oferecidos nas casas que se visitavam para apreciar as Maias, sobretudo nas zonas rurais.

Segundo a tradição local, em data incerta, mas seguramente nas celebrações de um 1º de Maio, um forasteiro ter-se-á aproveitado do espírito ingénuo e generoso dos locais e do carácter festivo da ocasião: “Contam alguns praguentos que nesta cidade aconteceu um caso estranho e digno de memória, dizendo que antigamente os moradores dela costumavam festejar o primeiro dia de Maio vestindo um estrangeiro com os mais ricos vestidos, que lhe podiam achar, e todo coberto d’ouro, de muitas jóias, cadeas, braceletes, anéis e peças de muita valia, que lhe cosiam por cima dos vestidos, o faziam cavalgar no milhor cavalo, e todos com suas trufas na cabeça, adargas nos braços e suas lanças, andavam com ele por toda a cidade, e diante dele iam homens, tangendo em frautas, e muitas mulheres cantavam e dançavam, e diziam todos: Viva o nosso Maio. E tendo feito Maio a um estrangeiro, ornado e posto a cavalo, e dizendo-lhe, fora da cidade, que corresse, apertou as pernas ao cavalo e fugiu com todas as joias e peças ricas da terra em Maio, e, por causa daquele homem, lhe chamaram mês que não devera, em memória da grande perda que tiveram.” – Sarrão, Henrique Fernandes in “História do Reino do Algarve” (c. 1600), - “Duas Descrições do Algarve do Século XVI” - Cadernos da Revista de História Económica e Social, Nº 3 - Livraria Sá da Costa Editora.

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